segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O ENCONTRO





A casa estava vazia. Era uma quinta-feira após o carnaval. Nós, meus irmãos, alguns primos, alguns amigos e eu cantávamos, ainda, umas musiquinhas que foram sucesso no reinado de momo.
O Senhor Antônio mudara da casa não fazia uma semana. Como ela era de propriedade de meu tio e estava aberta para limpeza, fomos pra lá fazer nosso bailinho de carnaval. Pulávamos, brincávamos, cantávamos, era uma balbúrdia geral.
O suor começou a escorrer pelo meu corpo. Aí, tentei dar uma fugidinha. E consegui. Fui para a sala ( brincávamos no quarto grande) e lá encontrei um homem fantasiado.
- Veio brincar com a gente? Perguntei
- Não. Vim apenas vê-los. Ele respondeu .
- Como é seu nome?
- Deixa pra lá!!!
- Ah! - puxei-o pelo braço. – vem aqui dentro. Vem pular com a gente.
- Não. Respondeu-me, secamente, o homem.
- Me fala seu nome, vai...
- Vem cá. Dizendo-me isso, estendeu os braços como se fosse para que eu subisse no seu colo.
- Ta.
Dependurei-me em seu pescoço e notei que ele pegava fogo. Parece que estava com febre. Suas mãos eram ásperas, mas seu sorriso contagiante.
- Quantos anos você tem?
- Três. Respondi. E o senhor?
- Eu não mais tenho idade.
- Por que?
Ele fingiu não ouvir.
- Bonita sua fantasia.
A fantasia dele era cinza, felpuda, com um grande rabo, dois chifres e um tridente.
Eu me pareço com o capeta? Ele perguntou.
Não. Minha mãe falou que o Capeta é feio, vermelho, muito ruim. Falou que ele é muito mau, que a gente nem deve pensar nele e...
Nossa conversa foi interrompida pela chegada das outras crianças. Ele, rapidamente, me soltou e correu para a copa. Ainda fiquei algum tempo olhando para ele que, com um sorriso bondoso falou pra mim, bem baixinho, quase só mexendo com os lábios.
- Sou o capeta, sim. Mas não sou mau como dizem.
E numa nuvem de fumaça desapareceu.


Beto metri
Escrito em 1984

Um comentário:

miguel antinarelli disse...

Beto, te devo dar um puxao-de-orelha (no bom sentido, claro). Pra 1 Ministro da Eucaristia, este conto minimiza o poder do principe do mal (nem ouzo pronunciar seu nome...).E' isso q ele quer ... e nao te digo q, medroso como sou, na noite q li estas "mal-tracadas-linhas", estava em Roccasecca, sozinho e tive de dormir com a luz acesa !!! e com um crucifixo na mao !!! quase como qdo eu fui ver o exorcista, menor de idade e com carteirinha falsificada, la num cinema do Alameda em Niteroi !!!! Por favor nao minimizi o poder maligno q tem o Falsario. Como penitencia vc deve editar algo de lindo da Nossa Senhora, ta bao? ( o texto do seu Josè, por ex è maravilhoso !!! os outros tb, todos ) Fica com Deus, Miguel (e ve se nao faz eu dormir de luz acesa de novo ...)