sexta-feira, 14 de agosto de 2009

SOL A SOL



Enquanto um olho dormia, o outro ficava arregalado e a boca mascava um fuminho de rolo “dos bão”.
- É, do jeito que as coisa anda, a gente tem que fica sempre de tocais pro caso de acontece arguma disgraça.
E é levantar bem cedo, lavar a cara na água com sabor de lata, tomar um cafezinho adoçado com rapadura, pedir à mulher pra mexer um angu, comer um pouco e partir pra labuta. Deus espera; o patrão, não.
- Jesus Cristo ta no céu, Santo Antonio no altar, cobra baixa a cabeça que é presse fio de Deus passa.
Damião vai mato adentro com a foice nas costas e no embornal dois pedaços do broa de fubá preparada pela Arminda.
- Muié boa a danada! Num se incomoda cum nada. Num si importa de acorda junto cum galo. Mal o bichinho canta, já ta a Arminda de pé. E num si aperreia cum as coisa. Quando é preciso ir na venda lá na cidade, é ela que arreia o animal. Lá ela pede pru Seu Zé do Maninho arruma bem direitinho as compra no saco, põe no lombo do animal e vorta pra roça. Quando ela chega em casa, ela apeia, tira as compra de cima do bicho, carrega pra dentro de casa... é... muié boa, a danada!
Caminho longo a percorrer todas as manhãs. Subir um morro, descer um outro e, quando não é para roçar um pasto é pra se meter num brejo e, com água ou lama até na cintura, arra a terra, plantar o arroz... E , no fim de semana, receber seu pouco dinheiro. Vai à cidade e compra arroz.... o que planta.
- Mas se argum dia arranja um sitiante pra meia as terra, aí sim, vô podê dá conforto pra Arminda, arruma um cavalo pra cada muleque e por eles pra estuda no Grupo da Dona Vera ou da Dona Marieta.
- Damiããããooo!!! Ôôô Damião....Damiããããoooo. Tá na hora de cume...
- Já vô, Arminda.
- Êpa!! A marmita ta fria!!!
- E eu quentei ela gorinha mesmo...
- E as criança???
- As minina tão em casa cuidando do Minduim. Tadinho! Ele ta cuma dor de barriga daquelas, cuma disinteria danada! Mas já dei pra ele um chazinho de mato cum broto de goiaba... e os outro minino tão capinando a horta do Sô Jioaquim lá na rua.
- É , muié. Já ta acabando o tempo do plantio. Sei não. Se num acha um servicinho por fora, vai sê só na coieta. Já lavo as rôpa da Dona Izabel?
- Já.
- Manda o Tunico leva.
Volta para o meio da várzea e trabalha até o sol se esconder.
Volta pra casa cansado, pregado e es estira num canto da cozinha enquanto Arminda esquenta o jantar(?) As crianças já comeram. Só falta ele.
- Ô, Arminda, o cume num ta pronto? To cuma fome dos diabo!
- Tiscunjuro, Damião!!Num fala assim, que Deus castiga.
O rádio de pilha, sintonizado numa rádio que toca música sertaneja: Assum preto veve sorto, , mas num pode avuá, mil veiz a sina duma gaiola, desde que o céu, ai, pudesse oiá...”
- Quenta o café, muié.
- Já vô, Damião.
- “Talvez pur ingnoraça, por mardade das pió, furaro os óio do assum preto, pra ele assim, ai cantá mio...
- Ämanhã tem roçada pra faze.
- Ééé. Nóis temu que comprá uns pano pra faze ropa prus minino í na missa.
- Ééé.
- Vamu drumi?
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- Acorda, home, ta na hora de ir pra missa.
- Já chamô os minino?
- Não.
- Intão chama.
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- Acorda, home. Ta na hora de trabaiá.
- Ta.
E é levantar bem cedo, lavar a cara na água com sabor de lata, tomar um cafezinho adoçado com...
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- É, Arminda. O mais veio caso. As minina tão trabaiando nas casa de família na cidade...e essa dor nas perna que num passa..
- Tem fé em Deus, home.
- É, já tamu chegando no fim da vida, e nada..
- Mas Deus foi muito bom!!
- E essa dor nas costa que me agunia!!!
- Óia a fé, home!
- E nunca achei ninguém pra meiá as terra.
- Meus dedo tão que num guento de tanto reumatismo. Tenho que lava umas rôpa.
- É. Sinão nóis num come.
Co-có-có-ricóóóóó.... có-có-có-ri-cóóóó.....
- Acorda, Damião. Tá na hora. Damião.Acorda, home de Deus.Ô Damião....Damiãããoooo...Acorda....Ih!!! Ocê ta frio!!!! Acorda, Damião......
Palma, 14 de agosto de 2009

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

UM DIA COMUM DE DOMINGO

UM DIA COMUM DE DOMINGO
NA VIDA DE UM MENINO COMUM
NA PALMA DO FINAL DA DÉCADA DE 1950

- Dóminus Vobiscum
- Et cum spírutu tuo
- Ite, Missa est
- Deo grátias
- Benedicat vos omnipotens Deus, Pater, et Filius et Spíritus Sanctus
- Amen

O fim da missa é o começo do meu dia de folga. O uniforme branco da Cruzada Eucarística Infantil e a fita amarela vão para o “camiseiro” e por lá ficarão até o próximo domingo.
Pra começar, combino com outras crianças e vamos para o jardim brincar de parte-queijo. Seu Tuninho implica com a gente e fica de marcação pra que ninguém pise nos canteiros e estrague as rosas que ele cuida com tanto carinho. Mas Seu Tuninho é muito bravo e a gente fica até com medo dele.
Pena que o Parque do Banana que está armado na Rua do Dó está fechado e a Jussara, filha do Banana só vai se apresentar co m o número de contorcionismo à noite, logo depois da Nair da Dona Bernardina cantar o último sucesso do Orlando Dias.
Como não há o que fazer e a hora do almoço está chegando, vai cada um pra sua casa. Eu, então, vou para a minha. Quando entro em casa já sinto o cheirinho do frango assado, da macarronada feita com bastante molho de massa de tomate e do arroz temperado com “petit pois” , coberto com farinha de rosca e rodelas de ovo cozido. E, como é domingo, talvez tenha até guaraná champagne e sobremesa de arroz doce com bastante canela.
Uma pequena soneca . De repente ouve-se a sirene do cinema anunciando que vai ter matiné. Mas, disso eu já sabia. Na volta do jardim, passei pela Rua do Cinema e vi o cartaz que Seu Antonio Agrícola fez com aquela letra vermelha, sombreada de azul. O filme Tarzan e as Amazonas, com Johnny Weissmuller e Brenda Joyce,já era um filme velho, da década de 40, mas toda vez que passava a gente assistia. Quase que a gente já sabia de cor e salteado todas as cenas.
Juntei minhas revistas de Cavaleiro Negro, Zorro, Roy Rogers, Mandrake, Capitão Marvel , Bolinha , coloquei a roupa nova e lá fui eu. Da janela, minha mãe vigiava pra ver se eu ia atravessar a rua direito. Tinha que olhar pros dois lados e ir pela sombra. Como tinha menino com revista no cinema naquele dia! Troquei algumas velhas por outras que eu ainda não tinha lido. A luz começou a piscar. A sirene tocou avisando que já estava na hora de começar. “Atualidades Atlântida”, alguns trailers e chegou a hora.Ao som de shiiittt!!! Sshhiiittt! a gente tocou o passarinho da tela e o filme começou. O momento é mágico. Depois do filme, vem a série do Zorro. Uma cena de suspense. E o suspense deve ser mantido até o próximo domingo quando vier o outro capítulo.
Volto pra casa onde me espera uma caneca com café e leite e pão com manteiga.
Mas o dia não termina aí. Tem o aniversário do Batista. As recomendações são as de sempre. Mãos para trás. Não comer muito. Não faltar com a educação. Não fazer bagunça. Não sujar a roupa. Não mexer nos presentes. É uma quantidade de “nãos” tão grande que quase não resta nada a fazer. Mas, vou assim mesmo.
Logo na entrada a mãe do Batista manda a gente ficar na varanda e esperar a hora do parabéns. Ficamos conversando e contando a história da série do cinema, e cada um fala o que acha que vai acontecer. Chega a hora de cantar o parabéns pra você. Na sala, no centro da mesa, um bolo coberto com glacê de limão nas laterais. Em cima do bolo, açúcar tingido com anilina verde e vários bonecos com roupinha de jogador de futebol. Uma vela azul com o número sete. Apagam-se as luzes. Acende-se a vela. Cantamos o parabéns, Batista sopra a vela. Os meninos mais educados ( ou mais reprimidos) encostam-se na parede e esperam alguém passar com uma bandeja oferecendo um docinho de figo cristalizado. Aceito um. Passa outra bandeja com olho de sogra. Posso aceitar mais um. Vem o copo de guaraná. Com um “muito obrigado”, pego um copo de papel estampado com a figura um aviãozinho. Quando chega o doce de leite, sou obrigado a dizer: não, obrigado. Minha cota de doces acabou e tenho que obedecer, senão quando tiver outro aniversário, o castigo é certo.
Que inveja do Robson que antes de sair pergunta: Posso levar um pedacinho de bolo pra minha mãe.? Ele ganha mais um pedaço e leva. Que inveja!!!!
Volto pra casa com gostinho de quero mais
Acabou a festa.
Acabou o domingo.
Hora de dormir.
“Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa, me ilumina. Amém.”
Bem baixinho, quase que escondido, peço ao Santo Anjo que faça minha mãe se esquecer de fazer tanta recomendação, tanta proibição, quando chegar o próximo domingo.

Beto Metri em Palma, 12 de agosto de 2009.

QUEM DE QUEM???? PALMA TEM CADA UMA!!!!

Há algum tempo, o Cléverson me passou um e-mail falando dos apelidos em Palma, onde todo mundo é de alguém. Os sobrenomes, às vezes, pouco interessam. Realmente. Comecei a fazer uma listinha e ela foi crescendo e deu no que vai a seguir. Que me perdoem os não lembrados, que me desculpem os que citei sem a devida autorização. Mas....

Adão da Preta,
Amelinha do Nego
Antonio de Pádua do Quinquim,
Aparecida do Joaquim Barros,ou
Aparecidinha do Wanir
Aparecida do Robinho,
Aparecida do Zelino,
Batista do Gibson
Bete do Nandinho
Betinho do Sr. Aristides,
Beto do Ataliba,
Bia da Tereza
Binha do Aníbal
Binha do Benamor
Binha do Miguel,
Cacá do Pedrinho,
Carlinhos da Aurette,
Carlos da Bizé
Carminha do Geraldo,
Carminha do Getúlio,
Carminha do Ulisses
Ceci do Marico
Cezar da Nina
Cida da Dona Núncia,
Cida do Amarelinho,
Cida do Binuca
Cida do Pequetito,
Cirene do Elias,
Conceição do Fabinho,
Cotinha do Ulisses,
Cristina da Zilica
Dona Helena do Seu Oliveiros,
Dona Odette do Doutor Thales,
Dona Zélia do Tenente Donaldson
Dorotéia do Bete,
Dulce do Bordô,
Dulce do Chiquinho
Dulce do Waldo,
Edinho da Sonia,
Edy do João,
Elaine do Paulinho,
Eliane do Broto
Ely do Pelota
Elza do Nenen Alvim
Emília do Tote,
Eneyd do Zé Amaral,
Enir do Vatinho
Erothildes do Zé do Maninho,
Eva do Dorvalino
Eva do Zé Padilha,
Fabinho do Geraldo Wilson,
Fafá do Ofo,
Fafá do Zequinha,
Fátima do Antonio de Pádua,
Fernanda do Antonio de Pádua
Filinha do Sr. Agenor
Filomena do Marquinho
Geraldo do Chico Lourival
Glorinha do Antonio Agrícola,
Glorinha do Caparaó,
Goretti do César,
Graça do Moreira
Gracinha do Walter,
Guilherme do Tico-Tico
Helio do Alceu
Hily do Juquinha,
Ieda do Américo Pinto,
Ieda do Jarbas
Imaculada da Gracinda,
Ione do Luiz,
Iracema do Nacib
Irany do Caio,
Isabel do Fernando
Isabel do Miguel,
Isabela da Miriam
Isabela do Argeu
Isaura do Zito,
Ivan do Dr. Thales
Jane da Dona Soraya,
Janete do Dr. Hélio,
João Batista do Cotinho
José Antonio do Zé Amaral
Judith do Roldão
Judith do Sr. Nicanor
Júlio do Waguito,
Juninho da Nancy,
Juninho do Hinkler
Karina do Tunico,
Kátia do Lica,
Laís do Geraldo,
Lalada do Waguito,
Lauricy do Zé Walter,
Léa do Chico de Oliveira,
Lea do João Guilherme,
Lea do Paulo,
Leni da Dona Bernardina
Leda do Ary,
Líbia do Tunico,
Lúcia do Vivi,
Luciana do Benamor,
Lucy do Cezinha,
Lucy do Chicão,
Luiz da Ione,
Luzia da Margarida
Luzia do Raimundo,
Lygia do Bastião Guedes,
Maizé do Beto
Málaque do Ferezinho,
Málaque do João Sapateiro,
Maninha do Lei
Márcia do Jorge,
Márcia do Miguel,
Margarida do Zinho
Maria Amélia do Geraldo Guedes,
Maria do Elias,
Maria do Tostão,
Maria Emilia do Jurandy,
Maria Helena do Chicão,
Maria Helena do Hélio,
Maria Lucia do Zé Bento,
Mariana do Maron,
Marisa do Martimiano,
Marquinho da Roberta
Marquinho do Euber
Marta do Bolão,
Marta do Maninho,
Maura do Julcy
Meire do Zé Francisco,
Michel da Jorgette,
Michel da Welda,
Nazira do Salomão,
Nego do Jorcelino
Neném do Bajara,
Neném do Zé Adriano
Nenen do Ricardinho,
Neuza do Leôncio
Nico do Rufino
Nilda do Camilo
Nina do Niécio
Norma do Mário Celso,
Oscar do Ofo
Paulinha da Zenilda
Paulo do Totá

Paulo do Vivi
Pedrinho da Cacá
Pedro da Eny
Pedro do Marico
Preta do Adão,
Regina do Nenen
Rita da Sonita,
Rita do Cizinho
Rita do Sr. Cotinho,
Rita do Sr. Silvino,
Romilda do Tuti,
Ronaldson da Dona Zélia
Rosângela do Edberto,
Rosinha do Dadá,
Rossini do Chicão
Rute do Zelito,
Sandra do Paulo,
Sérgio da Odair
Solange do Altamiro,
Sonia do Antonio Olegário,
Sonia do Cici,
Sr. Aristides da Dona Érika
Stelinha do João Sapateiro,
Sthella do Bibi,
Suely do Euber
Suely do Gabriel,
Suely do Oscar,
Tânia do Guilherme,
Tatiana do Garibalde
Tereza do Cléber
Tereza do Manoel
Tereza do Mário Olegário
Terezinha do Aídi
Trerezinha do Ataliba,
Terezinha do Zé Alexandre,
Tita do Sr. Heitor,
Toninho da Luzia
Toninho do Buté
Valdomiro da Crelma
Vera do Ofo,
Vilma do Vigilato
Vinícius da Crelma
Virgínia do Ribeirinho,
Vitória do Altamiro,
Wagner do Waguito
Walter da Dona Iracema,
Walter do Binuca,
Wanderlea do Saulinho,
Wilson da Cida
Zé Carlos do Galdino
Zé da Beata
Zé do Binuca,
Zé do Edson
Zé do Maninho,
Zé do Padre
Zé Francisco do Juquinha,
Zé Roberto da Dona Alzira
Zeny do William,
Zezé do Michilim
Zezé do Moacir
Zezé do Zé Retratista
Zezé do Zelito
... e por aí vai.
Falamos dos vivos assim.
Lembramos dos mortos , também, assim.
E se tiver mais, acrescente.

DIA DA ÁRVORE - Lembranças do Artur Bernardes

Dona Judith de Paula Freitas - Diretora



















Grupo Escolar Artur Bernardes lá pelos idos de 1960. Mais precisamente, agosto de 1961.
O friozinho ainda persiste nas manhãs de Palma. Alunos e alunas, comportadamente, brincam e conversam. Pasta de couro cheia de cadernos na mão, alguns com um embornal de brim com cadernos, livros, algumas bananas para a merenda e uma atiradeira, ou estilingue, para as brincadeiras na volta pra casa.
Algumas crianças trazem pacotinhos de arroz, feijão, sacos com batatas, cenouras, tomates, cebolas, folhas de couve e outras coisinhas para a sopa do recreio. Os meninos e meninas considerados mais pobres são os alunos da Caixa Escolar. Estes não precisam trazer nada para a sopa. Os produtos que os outros trazem são compartilhados entre todos.

E todos os dias, lá pelas oito e meia da manhã, o cheirinho da sopa da Dona Iná já se espalha pelo ar de todas as salas de aula.
Sete horas. Bate o sino. Dona Judith não espera. As professoras, por causa da rígida diretora, também não.
Entramos e vamos diretamente para o “galpão”. Cada um , militarmente, já sabe seu lugar na fila. Turma por turma, um por um, todos entram em forma. Silêncio. Ninguém fala. Ninguém se move. Ou um beliscão, um puxão de orelha ou até mesmo um safanão pode acabar com um risinho fora de hora.
Dona Judith inicia as orações. “Lembrai-vos, oh! Puríssima Virgem Maria...” ( até hoje esta oração ecoa na minha cabeça) Todo mundo, “fervorosamente”a acompanha. Depois, ainda em fila, cada turma segue para sua sala. Na sala de aula, ainda de pé, ao lado da carteira, cada um espera outra oração feita pela professora para poder se sentar.
Hoje é dia de “revista”. Mãos em cima das carteiras. Uma a uma, todas as unhas são olhadas, todas as orelhas inspecionadas, todas as cabeças fiscalizadas à procura de piolhos.
- Na sua orelha dá até para plantar um pé de couve!!!
- Nossa!!! Você trabalha na horta? Parece que sua unha está cheia de esterco!!!
Somente depois disso tudo é que a aula começa.
Na turma da terceira série, Dona Déa inicia um “bela” explicação sobre a importância da árvore em nossa vida. Fala que ela nos acompanha desde o nascimento, que nosso berço é feito de madeira, que nosso lápis é feito de madeira, nossas camas, mesas, cadeiras, etc até o nosso caixão na hora da nossa morte. Todos ouvem com atenção. Um olhar aqui, outro vem dali e a gente percebe que alguma coisa pode estar sendo tramada por algum menino mais levado. Realmente, a turma não é das mais fáceis: André, Aurora Maria, José Alberto (este que vos fala) , Roldão, Maria das Graças ( tem mais de uma) Lea, Áurea ( a Judas – você ainda vai saber o porquê), Randolfo José Antonio, Maria do Carmo. E outros que com certeza vão me perdoar pelo esquecimento. Afinal, são quarenta e oito anos...
Onze e meia. Sino. Todos arrumam o material. A vontade de chegar em casa para o almoço é deixada pra trás pelo José Alberto e pelo Randolfo que saem do Grupo gritando e pulando. De cada arvore arrancam um galho ou uma folha. E repetem, .zombeteiramente, os ensinamentos de Dona Déa. Os outros olham. Riem. E Áurea, com um sorrisinho maroto, observa mais atentamente.
Dia seguinte. Dia da Árvore. Todo o ritual se repete. Mas, somente até a chegada na sala de aula. Áurea, dirigindo-se à Dona Déa:
- Dona Déa. Ontem, O Zé Alberto e o Randolfo saíram da aula arrancando folha de tudo quanto é arvore.
Dona Déa se segura. Calmamente, chama:
- Randolfo e José Alberto, venham aqui na frente, por favor.
Os dois vão com medo. Mas, Dona Déa os acalma dizendo:
- Que gracinha!!!!! ( e nós, Randolfo e eu, acreditamos na “calma” e na “gracinha”) . Eu queria até saber como é que vocês pularam para arrancar as folhes. Deve ter sido de uma forma muito interessante. Mostrem pra turma. Todos devem querer ver.
Randolfo e Zé Alberto dão um pulo pra cima, erguem o braço e fazem o gesto como se estivessem tirando folhas e galhos.
Dona Déa repete o “Ah, que gracinha”! e dá a sentença.
-Então, se vocês gostam de pular e de arrancar folhas e galhos de árvore, vão ficar sem recreio e vão pular, como ontem, de agora até as onze e meia, quando a aula terminar.
Até hoje, quando me lembro, a perna dói. Toda vez que arranco uma folha de uma árvore, eu me lembro da Dona Déa.
Ainda há poucos dias, falei com o Randolfo sobre isso.
Ah!!! Áurea!!!!
Que saudade da dor na perna e da gargalhada na volta pra casa!
Obrigado, Dona Déa, por aquele dia. Valeu, pela boa e engraçada
lembrança que tenho hoje.
Palma, 12 de agosto de 2009.


Foto de 1959- da esquerda para a direita: Professoras dona Ieda, dona Romilda, dona Odette, Diretora dona Judite, Professoras dona Eny, dona Percy e dona Filinha.

(que pena! Faltou a Dona Déa)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

VAI UM SUQUINHO AÍ??????

VAI UM SUQUINHO AÍ?

Amanhece em Palma.
Estamos na década de 1960.
Na principal esquina da cidade, onde se encontram as ruas dr. Victor Ferreira e João Pinheiro ( ainda não existe a Rua Heitor Barbosa), num prédio onde já funcionou “A Barateira”de José Auad e a “venda” do Seu Zé Ribeiro – aquela venda onde há pouco tempo um boi entrou e espantou todo mundo - o cheirinho de suco é sentido pelos passageiros que esperam o ônibus do Seu Joaquim.
O ônibus para. Seu Joaquim sacode a poeira da estrada de Miracema, sobe a escada na parte traseira do ônibus, retira as malas de alguns passageiros e coloca a bagagem dos que entram, com destino a Laranjal, Leopoldina e Cataguases.
O guarda-pó, confeccionado na sua maioria com brim caqui “Floriano”, é traje obrigatório.
No prédio comercial, onde outrora funcionaram grandes lojas da cidade, hoje sutians e capas de malas estão em exposição pendurados em pregos nos portais.
Somente a porta principal está aberta. Lá dentro, uma antiga máquina de costura, uma mesa com tecidos diversos e uma divisória feita de madeira compensada.
Roseana, com seu vestido preto, os cabelos presos num coque, nos pés alpargatas roda e um grande sorriso que mostra uma grande dentadura. Grande mesmo. Cada uma, inferior e superior, com dezessete dentes cada. O incômodo causado pelo excesso de dentes provoca um cacoete que a faz levantar os lábios e mostra uma caretinha, não muito feia.
Descrito o cenário, vamos aos fatos.
Roseana levanta-se cedinho, pega um balde que fica debaixo de sua cama, no qual ela faz o xixizinho noturno e outras necessidades, coloca um pano de prato por cima dele e, sorrateiramente chega na porta principal. Olha para um lado. Olha para o outro. Percebendo que ninguém a vê, atravessa a rua com passos miúdos, mas rápidos. Entra por um caminho estreito onde antes existia a Venda do Juca Aarão, passa por trás de uma casa onde nos fundos funciona uma sapataria,chega até a margem do Ribeirão Capivara e despeja todo o conteúdo de sua produção noturna. Balde vazio, volta para casa.
Lá dentro, um tanque de cimento serve de pia de cozinha, lavatório e tanque de lavar roupa. Nesse tanque, ela lava o balde. Dá uma chacoalhada com água. Depois o enche e o leva até uma mesa que fica ao lado da cama. Despeja nele o conteúdo de dois saquinhos de Q-Suco, adoça com açúcar cristal e o leva rapidamente para saciar a sede dos viajantes que, naquela hora da manhã, já sentem o calor do dia que se inicia.
Elogios ao sabor do suco. Agradecimentos à Roseana.
Entre um copo e outro, vende um porta-seio e uma capa de mala. Aceita encomendas. É uma comerciante e uma costureira de mão cheia.
O ônibus sai. Ela deseja boa viagem ao Seu Joaquim e aos passageiros. Depois prepara mais um balde de suco e aguarda o próximo ônibus. Entre os horários confecciona mais porta-seios e outras capas de malas em tamanhos diversos.
Assim passa o dia..
E quando a noite chega, o balde volta pras debaixo da cama.
E quando o outro dia chega, tudo recomeça.
Vai um suquinho aí ??????

Beto Metri, 10 de agosto de 2009

domingo, 9 de agosto de 2009

FOTOS DIVERSAS


Estação Ferroviária








Cidade de Palma.
Ao fundo,
Morro da Ventania










Cachoeira do Engenho de Serra










Cachoeira da Congelação
(fotos cedidas por Diana Amaral Agrícola)














Ponte sobre o Rio Pomba, 
no distrito de Itapiruçu - Palma - Minas Gerais
















Ponte de Ferro, sobre o Rio Pomba, 
no distrito de Cisneiros - Palma - MG
















Vista parcial de Palma.


























Igreja Matriz de São Francisco de Assis, na década de 1990.




















Igreja Matriz de São Francisco de Assis, 1969


FOTOS CONTANDO A HISTÓRIA



















Igreja Matriz de São Francisco de Assis, em 1964.

























Estação da Estrada de Ferro Leopoldina, desativada na década de 1970.



















Baile na Sociedade Musical Santa Cecília, na década de 1950.
No palco, no violão, Antônio Agrícola; no sax,
Zezinho Agrícola; cantora, Maria Lira; na bateria, Domingos Petrillo.




















Rua João Pinheiro - Palma - 2008




















Casarão na Rua José de Paula Freitas.
(Como seria bom se todos tivessem o mesmo
cuidado na preservação dos imóveis de nossa cidade.
Construções como esta, proprietários como os desta casa,
preservam e mantêm viva nossa memória e nossa história.)
Prédio onde funcionou a Padaria São José, de José Antinarelli, na Rua João Pinheiro, demolido em 2008.

Casarão na Rua Antonio José de Andrade - construção concluída em 27 de setembro de 1888.


Praça Getúlio Vargas, 2003.


Fórum de Palma.




Grupo Escolar Artur Bernardes.



Palma, 2008.

Rua Tiradentes (subida)

Rua Francisco Sales e Igreja de São Francisco de Assis.