NAGIB, UM HOMEM DE PALAVRA!
Palma ainda era conhecida como
Vila do Capivara quando os primeiros “turcos” começaram a chegar. O passaporte
turco lhes escondia a verdadeira nacionalidade. Eram, como eles diziam,
sírios-libaneses.
Sahid Maluf foi o primeiro a
chegar. Casado com Naziha, assim que chegou, com o pouco dinheiro que tinha,
abriu uma quitanda. Daí para um armazém de secos e molhados não demorou muito.
Os filhos começaram a vir e os lucros também. Sahid tornou-se um próspero
comerciante. Sua venda tinha de tudo um pouco: tecidos finos, brasileiros e
importados, secos e molhados, ferragens,
armarinho e todo tipo de quinquilharia. Sahid enricou. Naziha era mulher de
cama, mesa, fogão e balcão.
O tempo passou e Sahid escreveu
uma carta para o os irmãos que moravam no Monte Líbano, numa pequena aldeia nas
montanhas. Lá estavam seus pais , três irmãos e uma irmã: Khalil, Youssef,
Nagib e Latife. Assim que eles receberam a carta e se encantaram com a
prosperidade de Sahid, começaram a preparar a vinda para o Brasil. Latife
estava casada de pouco, grávida pela primeira vez, e seu marido Feres se juntou
aos cunhados para virem tentar a vida do outro lado do mundo. Latife ficaria em
Deir el Qamar, onde os pais permaneceram, até que Feres se estabilizasse no Brasil.
Assim foi feito.
Passagens compradas.
No Porto de Beirute o adeus.
Lágrimas e a esperança de dias
melhores, longe da guerra e das perseguições . Se o Mediterrâneo era um
“mundo”, o Atlãntico era temível. A tragédia do Titanic era recente.
Mas, chegaram ao Porto do Rio de
Janeiro. O trem da Leopoldina Railways os trouxe para o interior de Minas
Gerais. Uma nova vida se iniciava.
Em Palma, Sahid já se tornara ,
também, um grande comerciante de café. A chegada dos irmãos e do cunhado viria
aliviar um pouco a quantidade de trabalho para ele e Naziha. E os irmãos Maluf
se tornaram, em pouco tempo, os maiores comerciantes da região. Isto provocou a ira e a inveja de alguns nativos.
Juca Rodrigues
sentiu-se o mais prejudicado com o progresso dos “turcos” pois seus negócios
que se espalhavam pelos distritos de Silveira Carvalho e Cachoeira Alegre começaram
a “minguar”. A culpa era dos irmãos turcos.
Latife havia
chegado há pouco coma filha , Jamel.
Youssef casara-se com Sahda e Khalil estava casado de pouco com Helena. Somente
o caçula, Nagib, continuava solteiro.
Juca Rodrigues ,
já amargando um grande prejuízo, concluiu que a solução seria dar um susto nos
turcos e contratou um matador para resolver o problema, eliminando pelo menos
um dos irmãos.
Numa noite,
quando os irmãos Maluf voltavam, a cavalo, de uma fazenda lá pros lados de Banco Verde,
eis que numa curva da estrada, já pertinho da Congelação, ,salta na frente
deles o matador, com uma carabina
apontada para a cabeça de Youssef. Khalil, rapidamente, pega a espingarda que
trazia junto ao arreio e atira, sem dó nem piedade no matador, para defender o
irmão. O matador cai morto. E agora? O que
fazer? “Turcos”, mesmo endinheirados, não tinham privilégios nem quem os
defendesse quando, numa briga ou demanda estivesse um brasileiro. Se Khalil for
preso, quem cuidará de Helena? A solução, para evitar maiores transtornos,
seria Nagib assumir a culpa e fugir. Nunca diria para ninguém quem fora o
verdadeiro assassino. Assim foi feito.
Nagib juntou uma
muda de roupa, pegou algum dinheiro e se embrenhou no mato. A polícia procurou
e não o encontrou. De Palma para Juiz de Fora. De Juiz de Fora para o Rio. E,
num navio que zarparia naqueles dias, partiu de volta para Deir el Qamar. Voltou para perto dos pais, mas ficou para
sempre longe dos irmãos.
No Brasil
ficaram quatro, que também jamais reviram sua terra natal e seus pais. Triste a
vida de quem fugia pelo mundo, deixando a terra natal e a família em busca de dias melhores.
O tempo passou.
Estamos em 2016.
Uma excursão
leva um neto de Youssef ao Líbano. Lá
ele vai conhecer Deir el Qamar e dois filhos de Nagib e familiares que ainda vivem lá. Passeando por Deir el Qamar com Antony, um dos netos de Nagib, Youssef, neto
de Youssef, pergunta como foi a vida de
Nagib. Antony conta que foi uma vida, inicialmente, de muito sacrifício, pois Nagib,
quando chegou do Brasil ainda pegou o Líbano numa situação muito ruim. Nem país era. Mas ele se casou ,
teve filhos, netos, construiu um patrimônio com o que herdou dos pais e com o
próprio trabalho. E morreu tragicamente quando, ao consertar um velho caminhão,
o veículo caiu sobre ele, esmagando-o. Foi aí que Antony falou que o avô teve
vontade de voltar ao Brasil, mas não o fez porque ele havia assassinado um
homem quando estivera em Palma. Youssef
, então, perguntou se Nagib nunca contara que ele não matara ninguém.
Surpreendido com a pergunta, Antony pediu que Youssef explicasse melhor. Youssef contou a história verdadeira para
um Antony cada vez mais espantado com a versão brasileira. Nagib mantivera a
promessa de não dizer para ninguém quem fora o verdadeiro assassino, mesmo
estando tão distante, mesmo que toda a família dele acreditasse que ele matara
um homem quando viveu no Brasil.
Antony voltou do
passeio aliviado. Youssef ficou feliz
por ter contado a verdade. E Nagib teve,
mesmo que tardiamente, sua memória aliviada do peso de uma morte que carregou
por toda a vida.
Um comentário:
Eu, mesmo que tardiamente, li.
Obrigado pela estória.
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